Homem com H maiúsculo

Homem com H maiúsculo
Por que o homem é a maior obra de arte

domingo, 22 de julho de 2012

"Hater", o internauta


Talvez seja uma das animações mais famosas da Disney e, sem dúvida, uma das mais geniais. O sr. Walker é um homem comum e pacato! É sóbrio, gentil, pagador de impostos e não teria a capacidade de matar uma formiga. Toda essa candura, entretanto, desaparece quando ele entra no seu automóvel para dirigir. Apesar de se considerar um bom motorista, o sr. Walker sofre uma terrível transformação quando pega no volante. A partir daí, seduzido por uma forte sensação de poder,  ele se torna o sr. Wheeler, o diabólico motorista. Cabe aqui ressaltar o trocadilho para quem não conhece muito bem a língua inglesa. O sr. Walker (caminhante, pedestre) se torna o sr. Wheeler (wheel significa volante, ou seja, o motorista).
O sr. Wheeler, bem diferente do sr. Walker, age de maneira egoísta e impensada, como se as ruas fossem seu território particular. As normas de convivência que regem o mundo do pedestre parecem não fazerem o menor sentido quando se é motorista. Enquanto o sr. Walker peca pelo excesso de gentileza, sr. Wheeler pensa que pode dirigir como bem entender, afinal, pagou impostos e pode usufruir das vias da maneira que achar melhor. Está sempre reclamando dos outros motoristas, como se só ele mesmo soubesse dirigir. Faz ultrapassagens perigosas, busina em excesso, grita e xinga os demais. Na hora de parar no sinal, irrita-se pelos 30 segundos de sua vida que estão sendo "perdidos" esperando pela luz verde que lhe dá passagem. Chega a divertir-se em causar infortúnios aos pedestres, esborrifando nos pedestres a água acumulada entre a rua e a calçada.
Quando estaciona e sai do carro, o sr. Wheeler dá novamente espaço ao sr. Walker. Calmo e compassivo, o honrado cidadão tenta atravessar a rua. O pobre coitado sofre, pois parece que nenhum motorista lhe dá passagem, um mais grosseiro que o outro, se importanto apenas em chegar mais rápido em seus objetivos. Acuado, sr. Walker é atropelado diversas vezes pelas feras motorizadas e é obrigado a se refugiar em seu carro, "tendo plena consciência de como um pedestre se sente" nas ruas. Mas é só sentar atrás do volante que o fenômeno acontece mais uma vez: sr. Wheeler está de volta!
Esses dias, conversando com um amigo sobre a maneira como as pessoas se comportam na internet, não pude deixar de notar como o fenômeno internauta se parece com o fenômeno motorista.
Os internautas são uma das raças mais grosseiros, arrogantes, prepotentes e narcisistas dos últimos tempos. Sentar-se atrás de um computador pode causar a mesma sensação de poder e impunidade que o sentar-se atrás do volante. Na internet descobrimos que podemos xingar e humilhar quem odiamos sem o inconveniente que teríamos se o fizéssemos cara a cara. Se sou flamenguista, não seria louco de entrar no meio da torcida do Vasco no Maracanã para causar arruaças. Mas na internet será sempre um prazer entrar num fórum ou comunidade online do time rival para fazer provocações e ataques infantis. Daí pra coisa se estender para as ruas não demora muito. Marcar emboscadas e brigas pela internet já se tornou comum entre as torcidas de futebol. 
A internet, a despeito de todas as suas muitas qualidades, tem enorme capacidade de amplificar e disseminar o ódio. No Orkut, por exemplo, tornaram-se populares as comunidades do "Eu odeio...". Eu mesmo já participei de algumas. Tem ódio para todos os gostos: "Eu odeio o padre marcelo", "Eu odeio emo", "Eu odeio o cristianismo", "Eu odeio minha professora", etc. Alguém poderia me dizer que essas coisas são inocentes. Bom, digam-me o que quiserem, o clima de uma comunidade de Orkut ou qualquer outro Fórum Online pode ser muito belicoso. Não há separação mais de um "hater" (como são chamados os que odeiam alguma coisa ou tudo) para um não-hater. A internet, como um todo, tem clima de guerra, algo que já extrapolou as brincadeiras.
Alguém aqui já leu os comentários dos internautas em sites como UOL, G1, Folha Online, O Globo, etc? Estou inclinado a acreditar que não há maior espaço para brigas, calúnias, ataques destemperados e raivosos do que nesse tipo de espaço. E os assuntos são os mais variados: política, futebol, religião, novelas de TV, fofocas sobre celebridades, música, etc. É difícil, hoje em dia, a gente ler algum comentário de notícias que não tenha, pelo menos, um barraco. E não estou falando de debates ou meras discussões. Estou falando de xingamentos e ameaças. De gente se degladiando e saindo da peleja ainda mais dogmático e certo de suas convicções do que quando entrou. Nesse tipo de situação, raramente se vê alguém mudando de opinião, pelo contrário. Todos são cheios da razão. A única coisa que concordam é que todos os outros são burros, menos ele e quem com ele concorda.

A Internet infla os egos ao retirar de nós a vergonha que o "olho no olho" causa. Raramente se vê pessoas discutindo nas ruas com a intensidade e com o palavreado pesado que se vê na internet. Pessoas que são, muitas das vezes, muito calmas na rua, se tornam agressivas e barraqueiras na internet. Tenho um amigo, militante do PSOL que é um doce de pessoa ao vivo, mas que no Facebook está sempre de quatro pedras na mão, atacando todo mundo com opinião política diferente. As vezes custo a acreditar que é a mesma pessoa. Eu mesmo já protagonizei barracos memoráveis na internet. Ao vivo já não sou uma pessoa muito calma... na internet eu fico irritado muito facilmente quando vejo comentários de baixo calão.Certa vez briguei feio com um amigo por causa de um post dele no Facebook. Ficamos meses sem se falar.
O Facebook, aliás, merece menção honrosa. Poucas coisas na internet são capazes de causar tantas brigas e discórdias. A rede social de Mark Zuckerberg é a consagração máxima do narcisismo internauta. O Facebook é, nada mais, que um página de divulgação de si mesmo. Muito mais do que o Orkut, ele funciona para a auto-promoção dos usuários. As opções do site possibilitaram que ele tenha se tornado um show de exibicionismo ao fazer com que toda atualização apareça nas páginas de todos os amigos do usuário. Se era ou não essa a intenção, o fato é que muitos estão ali para postar fotos com o intuito de se exibir e mostrar ao mundo como são bonitos(as), gostosos(as), ricos(as), inteligentes ou felizes. As pessoas disputam quem tem mais "curtidas" e chegam ao cúmulo de curtirem a própria atualização (desculpe quem faz isso, mas é patético). 
Na medida que as atualizações se tornaram o centro de disputa e relacionamento do site, é através delas que as brigas se disseminam. Quando vemos uma atualização que não gostamos ou discordamos, fazemos comentários negativos. O usuário que teve seu comentário criticado pode não gostar e responder. A partir daí o caos se dissemina. Como todos os seus amigos tem acesso às suas atualizações e também aos comentários dos seus amigos, quando você menos espera, pessoas de diferentes esferas da sua vida estão brigando no seu perfil. Qual não é a sua surpresa quando se depara com sua avó discutindo com seu colega de faculdade ou sua mãe batendo boca com o seu dentista! Pessoas que nem se conhecem e que se talvez se conhecessem em outro contexto, se dariam bem. 
Pode parecer irônico, mas a internet, que pode unir pessoas de diferentes lugares do mundo, também pode destruir relacionamentos, amizades. Pode disseminar ódios contra minorias, contra pessoas, contra comportamentos. No fundo, a internet é como a vida real, cheia de defeitos e qualidades, mas com um diferencial: na internet as paixões se inflamam e o respeito morre. Feito isso, um rancor virtual pode se transferir para o real e destruir relações, provocar brigas físicas entre pessoas e grupos de pessoas, causando estragos muito mais sociais e psicológicos do que físicos. É irônico: estamos trazendo o que há de pior da vida real para a rede, ao invés de trazermos o que há de bom da vida. 

Um comentário:

  1. Leonardo Lourenço27 de julho de 2012 22:21

    Interessantíssimo o post! É impressionante como as pessoas podem mudar na internet, não só na forma da raiva mas também assumindo uma personalidade completamente oposta a sua. Constroem na rede uma vida que pode, de longe, ser diversa da realidade. Se fazer os outros acreditarem em um "Eu" ilusório já é questionável, o próprio "inventor" se convencer de que aquilo é de fato real é algo corrente e absurdo! Excelente abordagem do tema, algo que precisamos discutir mais, mas de forma educada! Hahaha ^^ Parabéns!

    ResponderExcluir