Homem com H maiúsculo

Homem com H maiúsculo
Por que o homem é a maior obra de arte

sábado, 7 de abril de 2012

Irônico

Como diz a Alanis Morissete, a vida faz de tudo pra te ferrar com suas ironias sem fim. Tem coisa pior que conhecer o homem da sua vida e, logo depois, descobrir que ele é casado?



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Combate à intolerância religiosa deve ser bandeira nacional

  

Sentir a intolerância religiosa na pele é algo bastante chato. Já houve quem disse, no passado, que o Brasil era um país de tolerância religiosa. Se foi, já não o é mais. Cada vez mais evangélico, nosso Brasil mergulha nos mares da arrogância e prepotência religiosas.
Senti isso na pele na terça feira, dia 27 de abril. Estava esperando uma consulta no Hospital Clementino Fraga Filho, no Fundão, onde faço tratamento. Quem conhece o Clementino sabe que ele tem um corpo médico excelente, mas que o atendimento e a estrutura são péssimos. Como sempre, fiquei esperando horas e horas pra ser atendido. Como já é de praxe, os pacientes conversam e interagem uns com os outros enquanto aguardam serem chamados. Nada mais natural que falemos sobre o motivo de estarmos ali: nossa saúde. Uns reclamam, outros agradecem. Uns contam histórias tristes, outros relatam momentos de angústia e fé.
E quem gosta de conversar com pessoas estranhas em lugares públicos, sabe que falar de fé, hoje em dia, está se tornando complicado. Principalmente pra quem não tem fé. Não me lembro bem como fomos parar nesse assunto. Lembro que estávamos conversando sobre um assunto menos espinhoso e, quando percebi, uma mulher já estava me perguntando: "Você ora quando você acorda e quando você vai dormir?". Olhei para a balzaquiana que me dirigira a palavra, uma negra meio gordinha e com cara de cansaço. "Não, eu não sou uma pessoa religiosa", respondi.
Foi aí que a bomba, inexplicavelmente e surpreendentemente, explodiu!
Indignada com minha afirmação, ela me olhou com cara de reprovação e, abanando a cabeça, disse: "Nossa, mas que vida miserável você tem!". Surpreso com o ataque despropositado, eu disse que ela não poderia fazer um julgamento de como era minha vida sem me conhecer. Não se dando por satisfeita, ela contou sobre um rapaz que conhecera há anos no mesmo Hospital onde estávamos. Ela teria tentado falar sobre deus com ele, mas o homem teria recusado. Pouco depois o rapaz morreu. "Mas comigo", prosseguiu, "foi diferente. Eu fui desenganada pelos médicos, mas eu tive fé e hoje estou viva. Sabe onde está esse pobre garoto hoje? No inferno! Quando falei com ele, era a última chance que deus tinha dado pra ele". 
(Pausa para meu pensamento: qual a moral desse tipo de história que os crentes amam contar? Por que, tipo assim, isso me parece mais uma ameaça do que uma oferta de um deus amoroso. Tipo, se eu não faço o que deus quer, ele me mata? O.O)
"Olha, essas são suas crenças, minha senhora. Você acha que o rapaz foi para o inferno, mas não tem provas disso. É sua fé. Eu tenho crenças e valores diferentes. Eu não preciso orar de manhã cedo para me sentir bem comigo mesmo e não sou miserável por isso". Ao relativizar o suas afirmações, fiz com que ela se iritasse mais, elevando o tom da voz: "Não sou eu que digo, é Deus. Ele foi pro inferno, é um FATO!".
À essa altura, várias pessoas prestavam atenção na nossa discussão. E todos estavam do lado da mulher. Faziam cara de diarréia sanguinolenta quando eu falava e sorriam e balançavam a cabeça bovinamente em acordo quando era a vez da mulher crente. Logo a seguir, chegou um homem de meia idade, um sujeito que eu já conhecia de outros dias de espera para a consulta. Eu conversava muito com ele e quando o vi se aproximar, pensei: "Ah, que bom, alguém veio me defender, não vou ficar mais sozinho!".
"Toda vez que eu vejo esse rapaz por aqui", começou ele ao colocar a mão no meu ombro "ele está sempre lendo um livro". E era verdade. Sempre aproveito o dia que eu perco no Hospital para ler alguma coisa do mestrado. Quando conheci esse cara, lembro que lia Marcuse. Nesse dia em questão eu estava com A revolução sexual, do Reich. .
"Você é um rapaz muito fechado", continuou ele, "e agora vejo que você é depressivo por que não conhece deus, então fica lendo livros, sinal de solidão e tristeza espiritual".
(Pausa para meu pensamento: ler agora é sintoma de depressão espiritual. Não leia, assista o programa do Silas Malafaia. As crente pira!).
"Gente, que absurdo!", protestei, "eu sou acadêmico, eu tenho que ler. E mesmo que não fosse obrigação, ler é uma atividade que eu acho prazerosa e não é depressiva!". Mal eu terminava a frase e já estava cercado por várias velinhas e pelo cara anti-leitura, todos dizendo o quanto deus me amava, apesar de querer me mandar pro inferno. Era tanta gente falando e apontando o dedo na minha cara que eu achei que ia desmaiar. Fui salvo pela médica que me chamou bem nessa hora: "Tiago Ferreira!". Corri pra dentro do consultório para fugir da grande inquisição.
Respirei aliviado quando fui embora e senti um gosto amargo na boca. Nunca tinha passado uma experiência religiosa tão ruim desde que parei de frequentar a igreja que meus pais me faziam ir anos atrás. Senti-me com medo desse novo Brasil fundamentalista que se ergue. Conversando com meu amigo Jardel, três dias depois, comentei sobre como esse fato havia mexido comigo. Já pensava há algum tempo em me associar à ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) e ao PSOL e senti-me mais convicto dessas atitudes depois do que aconteceu. Para minha surpresa, ele me disse que também queria se filiar à ATEA e ao PSOL. Ou foi coincidência demais ou nós dois somos parecidos. Talvez os dois.
Por isso é bom ter amigos. Quando o mundo pisa em você, eles ajudam você a se levantar. 
Tirei uma lição disso tudo. Se não lutarmos por uma sociedade laica, podemos ver o Brasil se tornar uma teocracia. Lutar contra o fundamentalismo implica, por exemplo, combater o preconceito e a desinformação a respeito do ateísmo, do agnosticismo e do laicismo. A implementação da laicidade efetiva do estado deve ser uma bandeira nacional. Eu, como aspirante a budista e agnóstico, me sinto no dever de dar às mãos aos ateus e aos religiosos não fanáticos por essa causa. Até quando vamos ignorar que o fundamentalismo está se tornando um problema tão grave quanto a fome e a violência? Eu não vou ignorar, me recuso. Quem se omite, é cúmplice!