Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

 


O cinema é uma das artes mais belas e, talvez, a mais completa delas, por envolver uma gama de trabalhos artísticos, como figurino, pintura, desenho, interpretação, fotografia, música, etc. Justamente por ser tão vasto que ele chama tanto a atenção do público e o arrebata, pois nos faz sentir o toque singular das musas gregas das artes, uma a uma. Mas o cinema é, também, um meio de fazer dinheiro. E muito dinheiro! Não tenho nada contra filmes caça-níqueis. Não mesmo. Adorei Avatar, vi todos os Harry Potter e sou fã incondicional de Guerra nas estrelas. Só que cinema é mais do que bilheteria e simples entretenimento fugaz. Que tal se o filme entreter e também te fazer refletir ou sentir o que nunca sentiu? E se o filme conseguir não ser chato e, mesmo assim, relevante? Parece difícil. E é. Mas para tudo que é difícil existe um Darren Aronofsky. Gosto desse diretor desde Requiem para um sonho, mas só agora passei a admirá-lo na proporção que ele merece.



Cisne Negro, seu mais novo trabalho, conta a história de uma bailarina, Nina Sayers (interpretada pela nova deusa de Hollywood, Natalie Portman) que tem o difícil trabalho de interpretar dois papéis numa adaptação de O lago dos cisnes. Uma menina solitária, frágil e superprotegida pela mãe, Nina se vê numa situação difícil, pois o diretor do espetáculo, Thomas Leroy (Vincent Cassel), acha que ela não tem sensualidade para interpretar o cisne negro, que representa a libido, a luxúria e a maldade.  A bailarina só se sai bem no papel da mocinha da história, o cisne branco, que representa a pureza e a bondade. Desafiada a encontrar o seu lado negro e sombrio, Nina acaba se perdendo na escuridão, não sabendo mais o que é real ou não. À sombra dela (e sempre à sua espreita) duas outras bailarinas: Beth Macintyre (Winona Rider) e Lily (Mila Kunis). A primeira é uma experiente dançarina que foi "convidada" a se aposentar por ser considerada velha. A outra se torna a maior rival de Nina. Muito mais espontânea e vibrante, a jovem dançarina veio de São Francisco e chama a atenção pela doce e  ácida informalidade, despontando como provável substituta da protagonista. Enquanto Beth horroriza Nina por ela lhe parecer o seu futuro, Lily o faz por que parece ter o que Nina não tem: a versatilidade para ser os dois cisnes. 
Disposta a tudo para encontrar o cisne negro dentro dela, Nina adentra o obscuro mundo da sua mente, trazendo à tona o que há de mais sinistro em sua alma. Se interpretar o cisne negro torna suas performances caricatas e fingidas (como lhe diz Leroy em tom de acusação), resta à ela SER o próprio cisne negro, se tornar ele. Não só interiormente, mas por fora também. A transformação tem que ser completa, perfeita. Se o cisne negro é sensual, erótico, indomável e egoísta, Nina também tem que ser. E assim como a irmã negra do balé de Tchaikovsky engana e seduz para conseguir destruir sua própria irmã branca e roubar-lhe  o príncipe, Nina também deve destruir tudo e a todos que estiverem entre ela e seu objetivo.O que deve incluir ela mesma.



Mergulhar com Nina, Natalie Portman (que é uma diva digna de todos os aplausos) e Aronofsky nessa verdadeira aula sobre a alma humana foi uma experiência marcante para mim. Fazia muitos anos que o clímax de um filme não mexia tanto com o meu estado de espírito. Fiquei embasbacado, arrebatado, feliz! Deu vontade de aplaudir e gritar "Viva!" quando os créditos apareceram e, se não o fiz, é por que o pudor de um cinema de shopping center (Plaza Niterói para ser mais específico) não me permitiu. Essa é uma das vantagens do teatro, poder gritar e extravasar após o término do espetáculo. 
Aconselho todos a verem o filme e tirarem suas próprias conclusões. Admito que não é uma obra para todos os públicos. Como a maioria prefere filmes mais comerciais e de fácil digestão, determinadas cenas podem parecer fortes, como as de auto-mutilação, que estão bem verdadeiras. Há, ainda, uma cena de sexo lésbico que é de arrasar o quarteirão. Só isso já vale o ingresso. Se tu só curte efeitos especiais, não vai encontrar muita coisa. Se curte boas histórias, ótimas interpretações, bom roteiro e direção e um clímax de parar o sistema solar, então vá ao cinema mais próximo agora.


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