Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

domingo, 24 de outubro de 2010

O que eu achei de Lost (muito tempo depois)


Deveria ter escrito sobre isso há muito tempo, mas sempre deixava para depois. Chegou a hora.
Lost foi, sem duvida, a série de TV que mais me proporcionou emoções em toda minha vida. Personagens cativantes, dramas pessoais maravilhosos, mistérios alucinantes. Tudo isso na medida certa. Quer dizer, tudo isso na medida certa nas duas primeiras temporadas. A partir da terceira, a coisa começou a desandar. Parte do brilho causado pelos mistérios foi sendo apagado quando conhecemos quem eram os "outros" e descobrimos que eram pessoas comuns, apesar das proezas mágicas que faziam nas primeiras temporadas. Depois, a história foi se complicando, com a inserção de novos personagens e novas subtramas complicadíssimas, que foram tornando a série meio bagunçada e sem foco. A cada novo episódio e a cada nova temporada, a série ia decaindo um pouco mais, de maneira bem lenta, porém gradual. Eu, como fã que sempre fui, tentava enxergar essa degenerescência apenas como um tropeço que seria corrigido com a última e salvadora temporada. 

Então chegou a sexta temporada e Lost não engatilhou. Apareceu uma tal de Realidade Paralela (RP), uma coisa chata pra caramba, que sempre atrapalhava o andamento do que acontecia na ilha. Minha esperança era de que essa tal RP tivesse alguma serventia. Mas a cada novo episódio, tudo que meus piores pesadelos previam, pareciam se confirmar: Lost seria uma série sobre o nada, sobre vir de lugar nenhum e parar em lugar algum. Depois do episódio The Candidate, ainda pensei que pudesse haver alguma surpresa salvadora de última hora, o que não se confirmou posteriormente. Gostaria de falar especificamente do último episódio.


O episódio final da série se preocupou única e exclusivamente em demonstrar os personagens em finais felizes. Nenhum mistério foi respondido, exceto que a Realidade Paralela, na verdade, era a “vida pós-morte” dos losties. Mas como essa “Realidade” só surgiu na última temporada, o desfecho só dá conta da 6ª temporada, relegando todas as cinco anteriores à acontecimentos inúteis. Os reencontros dos losties são bonitos e de fazer chorar: Claire com Charlie, Juliet com Sawyer, Jin com Sun, etc. Mas não passa disso: encontros emocionantes, mas sem relação com a trama que a série apresentou ao longo de seis anos. O Sci-Fi deu lugar ao romance! Dane-se todo o resto!

Infelizmente a série optou pelo caminho mais fácil: como não havia como responder as perguntas que foram feitas, a criação da Realidade Paralela funciona como um placebo. Quando descobrimos, na conversa entre Jack e Christian, que ambos estão mortos, temos a falsa sensação de que a série nos surpreende, que ela revela um último e importante mistério nos últimos minutos. Ledo engano! Essa “revelação” não possui nenhuma relevância para a trama central da série. Lost fez sucesso como uma série de mistérios, suspense e drama. Seria natural esperar que os dramas pessoais dos personagens fossem importantes, mas não a ponto de tornar todo o resto descartável! Afinal de contas, o que a conversa de Jack e de seu pai tem de importante? Já imaginou se no começo da série soubéssemos que o grande desfecho seria Jack no “paraíso” conversando com Christian? Esse é o grande mistério? Era só isso que tinham para mostrar?  Se era só isso, por que rechear tudo com charadas insolúveis? Se queriam discutir fé X ciência e religião, poderiam ter feito isso sem usar os quebra-cabeças, pois eles deram a falsa impressão (proposital) de que a série os achava relevante.

Afinal de contas, o que importa saber que eles ficarão juntos numa outra vida? A série era sobre essa vida aqui mesmo e seu desfecho desviou a atenção para a vida após a morte, deixando de lado todo tipo de perguntas que a série levantou (perguntas essas que foram responsáveis pelo sucesso de Lost no mundo todo).

Por isso que a RP não passou de um mecanismo de defesa, um recurso estilístico para evitar que os fãs se decepcionassem com um final pouco criativo e evasivo, pobre. A conversa de Jack com seu pai, que pretendeu ser o clímax do episódio (e por que não da série) não foi a resolução da trama como um todo, mas sim a resolução única e exclusivamente do mistério da RP, que, como já disse, não tem importância real para a série, visto que só foi criada nos últimos minutos do segundo tempo para desviar o foco dos mistérios não respondidos! Do ponto de vista do episódio, ele foi bem feito: conseguiu fechar a sexta temporada. Mas um episódio final deve ser o clímax de uma série inteira, e não de uma única temporada. 

Muitos fãs e até mesmo os criadores justificam que a série era sobre pessoas e não sobre a ilha. Conversa fiada! A série era sobre PESSOAS NUM ILHA MISTERIOSA, afinal de contas, TODA SÉRIE É SOBRE PESSOAS.  Friends é sobre pessoas, Supernatural é sobre pessoas, Heroes é sobre pessoas, até mesmo séries com animais são sobre pessoas. Lembram-se de Família Dinossauros? |Pois bem, era um seriado com personagens dinossauros, e que fazia críticas perspicazes às famílias americanas e ao seu modo de vida, bem como a relação dos pais com os filhos e a maneira do homem relacionar-se com a natureza. Quer história mais HUMANA do que essa? A base de uma história são sempre as pessoas. Mas o que diferenciava Lost, além dos ótimos personagens, era a ilha e seus segredos. E isso foi deixado de lado. Podem ter achado lindo ver os casais juntos, foi ótimo ver o Boonie e a Shanon, adorei ver Jack e Kate juntos na RP. Mas faltou muita coisa. Coisas que a série não dá elementos para debatermos e descobrirmos por nós mesmos. Faltam partes do quebra-cabeça, coisas que não podemos saber, apenas chutar e presumir. O artista não tem a obrigação de deixar todas as peças juntinhas e prontas para o apreciador, mas ele tem a obrigação de deixar todas as peças lá, prontas para que outros possam juntar. Se eventualmente faltar alguma parte, é por que ou não é relevante, ou porque somos capazes de enxergar o quadro com alguns buracos. Mas em Lost, tudo deixa de ser relevante, uma vez que a lição de moral a ser passada é que respostas não são importantes e sim fazer "a coisa certa" (e me digam como fazer a coisa certa sem obter informações pertinentes?)
Por isso eu acho que a RP foi um engodo, uma artimanha perversa dos criadores. O tempo que perderam com ela poderia ser usado para outros fins. O episódio do Jacob e do Homem de Preto foi curto e rápido! Poderiam ser dois episódios, mas, ao invés disso, perderam tempo em mostrar um “céu dos losties”. Totalmente inútil!

O outro grande problema de Lost, a meu ver, foi sua mensagem. Os criadores se posicionam ao lado da fé cega e desprezam o ceticismo bom e saudável. O Homem de Preto, que não aceitou ser uma ovelha e massa de manobra nas mãos de uma mulher louca e sádica que fingia ser sua mãe, foi punido, enquanto Jacob, seu irmão tolo e submisso, recebeu a graça (ou maldição?) de protetor da ilha. Jacob é uma marionete, que faz uma coisa a vida toda, sem saber por que o faz, apenas por que acredita. E, pior, ele faz com que todos acreditem nele, tornando-os marionetes como ele, servindo uma causa que ninguém sabe definir qual é. Por que proteger a ilha? Como podemos saber que proteger a ilha é bom e não ruim? Simplesmente por que Jacob disse? Simplesmente por que a "mãe" de Jacob disse? Então a moral é essa: acredite no que te dizem e dê sua vida por uma causa, mesmo sem compreender nada. Não foi o que Jack fez? Ele morre, ao final, como um total idiota, no meio do mato, um sacrifício humano em nome da ilha, sem saber nem o que essa ilha é. Esse tipo de mensagem parece mais campanha de incentivo da Al Qaeda. Colocam na cabeça de crianças, desde pequenas, que elas devem dar sua vida em nome de Alá, que não devem questionar, que devem ter fé e que duvidar faz mal.

Bom, eu acho que duvidar de tudo faz muito bem! Se os criadores de Lost acham que a dúvida e a divergência devem ser penalizadas da forma como o Homem de Preto foi, então é por que devem ter se inspirado em algum grupo estilo Hezbollah ou stalinista. Não vale a pena dar sua vida por nada sem antes pensar, compreender, ponderar a respeito. Não se pode submeter-se à fé dessa maneira doida e irracional, pois talvez não haja, como houve para Jack, um Paraíso pós morte, onde se pode rever os amigos e entes queridos. Quantos soldados não morrem em campos de batalha acreditando estarem defendendo um nobre ideal, enquanto os responsáveis pelas guerras estão lucrando com elas e ainda vivem em segurança em suas casas? As posições estão invertidas. Jacob é o vilão! O Homem de Preto representa o avanço da humanidade, a crítica humana, nossa capacidade de não nos contentarmos com o que religiões e ideologias nos dizem. Foi assim que a ciência (que também não está livre de dogmatismos) avançou e nos tirou das trevas da ignorância, que é para onde Jack e sua turma foram empurrados. Nos apaixonamos por um Sci-Fi, que virou uma mitologia eclética escapista e terminamos numa carolice proselitista. Lamentável!

Já pensou se a moda pega? E se toda obra de ficção ou mistério terminar com um preguiçoso “Por que Deus quis”? Essa é a resposta dos preguiçosos, com a qual a humanidade não avança. Se ainda estivéssimos priorizando essa resposta, ainda estaríamos pensando que doenças são castigos de Deus e não manifestações da Natureza que podem ser tratadas e curadas. 
Por mais que o final tenha sido ruim, não acho que ter assistido as seis temporadas tenha sido um desperdício, mas sim que o final não foi tão grande quanto o início. Ainda continuo acreditando que participei de uma viagem esplêndida que marcou a história da Televisão. O local de partida pode ter sido muito melhor que o de chegada, mas a experiência de fazer parte da história da TV foi incrível. 

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