Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A hipocrisia da imprensa brasileira


Creio não existir imprensa mais hipócrita no mundo do que a nossa. Nossos jornalecos e revistazinhas de quinta categoria não perdem a oportunidade de, como bons fariseus que são, se auto-intitularem defensores da democracia. Ao longo do governo Lula isso tem sido muito freqüente. Não é segredo para ninguém que o PT e seu mandatário barbudo, ex-operário e ex-sindicalista possuem uma "quedinha" pelo esquerdismo de tipo bolivariano. Aquele velho discurso de "governar para os pobres" associado a um revanchismo contra "a direita", identificada, às vezes, com parte da imprensa. Disso ninguém duvida. Só mesmo um petista roxo nega a tendência radical do partido. Mas e a imprensa? É sempre vítima ou se faz de vítima? Eu já respondo de cara: ela é, em geral, tão hipócrita quanto o petismo, e sua hipocrisia reside, justamente, em dissimular suas verdadeiras aspirações em pretensa defesa da democracia.
Duvidam? Então leiam abaixo parte do editorial que o jornaleco Folha de São Paulo publicou recentemente:

"ARROGÂNCIA DE SEMPRE: Relações de representantes do PT com a imprensa mais uma vez repetem, no caso Erenice Guerra, um padrão inaceitável de conduta


A candidata Dilma Rousseff reagiu com expressões veementes, no debate Folha/Rede TV! deste último domingo, a uma pergunta sobre as recentes denúncias de tráfico de influência envolvendo o filho de sua principal assessora, e atual ministra da Casa Civil, Erenice Guerra.
"Eu não concordo, não vou aceitar, que se julgue a minha pessoa baseado no que aconteceu com o filho de uma ex-assessora minha."
Dirigindo-se diretamente à jornalista, prosseguiu. "Você acha correto responsabilizar o diretor-presidente da tua empresa pelo que foi feito pelo filho de um funcionário dele?"
Beneficiada pela regra que proíbe réplicas dos jornalistas, Dilma Rousseff não apenas se esquivou de tratar dos pormenores do caso, como também fez uso de um subtexto frequente nas relações de petistas com seus entrevistadores.
Com efeito, é comum que tratem o jornalista não como alguém investido da função democrática e pública de questioná-los sobre temas incômodos, mas como uma espécie de funcionário a serviço dos donos de uma empresa.
Perguntar sobre um escândalo envolvendo a administração pública e os recursos do contribuinte não seria, segundo essa visão, defender os interesses da sociedade contra os abusos dos governantes, mas simplesmente seguir as ordens de algum chefe.
Todavia, quem segue ordens de um chefe, quem mistura interesses privados a questões de ordem pública, quem age de forma subserviente, quem conspira e quem se esconde não é o jornalista nem os que administram a empresa da qual faz parte.
O comportamento é, isso sim, típico de quem sabe ter à sua volta uma corte invertebrada de assessores, militantes, bajuladores e negocistas, incapazes de qualquer tipo de manifestação crítica."

Vamos por partes. Segundo o jornal "é comum que tratem o jornalista não como alguém investido da função democrática e pública de questioná-los sobre temas incômodos, mas como uma espécie de funcionário a serviço dos donos de uma empresa." E não é?Essa afirmação me causou choque, afinal, um jornalista é nada mais do que isso: um empregado. Numa sociedade capitalista (e eu nem comunista nem esquerdista) todo mundo vira funcionário de alguém. Todo mundo tem chefe, sempre há grupos particulares envolvidos. O editorial alega ainda que "quem segue ordens de um chefe, quem mistura interesses privados a questões de ordem pública, quem age de forma subserviente, quem conspira e quem se esconde não é o jornalista nem os que administram a empresa da qual faz parte.", mas que garantias eles dão de que, assim como o PT (e outros partidos políticos), eles não misturam interesses privados a questões de ordem pública, nem ajam de maneira subserviente ou conspiracionista? Exemplos históricos de que a imprensa faz as duas coisas são recorrentes na trajetória brasileira. A própria Folha foi conivente com a Ditadura Militar, nunca recebendo censura por parte dos ditadores, uma vez que se comportava como um cordeirinho manso. Me espanta que um jornal que afirma que o jornalista é alguém investido da função democrática, não tenha feito oposição ao Regime Militar, mas faça oposição tão ferrenha ao Regime Democrático de hoje.
Como se não bastasse, é comum a imprensa afirmar, em sua defesa, que a primeira coisa que um governo golpista ditatorial faz é cercear a liberdade de imprensa, pois ela seria (como se diz muito hoje em dia) o pulmão de um regime democrático de direito. Essa é a declaração mais farisaica que já ouvi na vida. Em primeiro lugar por que ela coloca a liberdade de imprensa como uma liberdade maior do que as outras. Como se o jornalista fosse, por si só, um defensor moral da democracia. Em segundo lugar por que se trata de uma meia-verdade. Só são censurados os meios de comunicação contrários aos golpistas. Os partidários são afagados e convidados para se sentar na sala de estar dos ditadores. Isso, aliás, foi o que aconteceu durante nossa Ditadura Militar. A maioria dos nossos jornais, revistas e redes de televisão comiam nas mãos nos milicos torturadores e faziam vista grossa para o que acontecia. Alguns podem até dizer: "Mas a censura não nos deixava dizer nada". Nem todos foram censurados, alguns simplesmente nada faziam e se calavam por comodismo. Sem contar que muitos desses meios de comunicação até apoiaram o golpe militar, ajudando a tramá-lo. Os mesmos que acusam (mesmo que com justiça) o PT de Lula de bolivarianismo, foram os que ajudaram a manter nosso país 20 anos debaixo do autoritarismo.
Nem sempre a imprensa é o pulmão da democracia. Às vezes a imprensa é a própria fonte da ditadura. Qual a relação direta entre ser jornalista e ser democrático? Nenhuma! Assim como não há relação entre ser honesto e político. Em ambos os casos, é desejável que os adjetivos venham acompanhados das funções, mas, diferente do que a imprensa brasileira quer fazer parecer, são dissociáveis. Ao confundir o papel ideal da imprensa com o seu papel real, o editorial da Folha, indiretamente, coloca o periódico como juiz moral da sociedade. A imprensa pode fazer o que quiser, pode fingir ser imparcial, pode tentar prejudicar seus adversários e mentir descaradamente, uma vez que essa quebra do código de ética já está justificada à priori, pois o que importa é que o jornal cumpra seu papel de julgar. Papel esse que eles teriam recebido de sua função democrática de jornalista. O problema reside no fato de não perceberem que a função de jornalista não é democrática por si só.
Como juízes morais auto-intitulados, a imprensa, assim como faz Lula, não aceita críticas. Quando elas aparecem, são sumariamente ignoradas. Seriam silenciadas pelo próprio silêncio dos meios de comunicação se não fosse pela internet. A própria ombudsman da Folha, Suzana Singer, fez uma dura crítica ao jornal em sua coluna publicada na edição deste domingo (12) sobre o modo como a publicação vem “se dedicando a revirar vida e obra” da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff. O jornal é acusado de ter dado um destaque que “não se justifica jornalisticamente” a uma questão sobre valores de contas de luz e de ignorar a reação dos leitores sobre isso no Twitter – ela diz que recebeu, até quinta-feira (9), mais de 45 mil mensagens anti-Folha. Ela destaca em seu texto que a Folha “foi à Bulgária conversar com parentes que nem a candidata conhece, levantou a fase brizolista da ex-ministra, suas convicções teóricas e até uma loja do tipo R$ 1,99 que ela teve com uma parente no Sul”.


"Tudo isso faz sentido, já que Dilma pode se tornar presidente do Brasil já no primeiro escrutínio que disputa. Mas, no domingo passado, o jornal avançou o sinal ao colocar na manchete "Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma". A ombudsman diz que o problema nem era a reportagem, "mas dar tamanho destaque a um assunto como este não se justifica jornalisticamente”, diz o texto.

Singer aponta que a reportagem da Folha “dava um peso indevido ao que se tinha apurado”, ao dizer que “a propaganda eleitoral apresenta a candidata do PT como uma ‘eficiente gestora’, mas que ‘um erro coloca em xeque essa imagem’”.Completou dizendo que "essa tem que ser uma conclusão do leitor, não do jornalista."

Para ela, a manchete “forçada” da Folha, mais o escândalo da Receita sobre a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato da oposição, José Serra (PSDB), “desequilibrou a cobertura eleitoral”.

"Dilma está bem à frente nas pesquisas de intenção de voto e isso é suficiente para que se dê mais atenção a ela do que a seu concorrente, mas, há dias, José Serra só aparece na Folha para fazer "denúncias". Nada sobre seu governo recente em São Paulo. Nada sobre promessas inatingíveis, por exemplo."

No Twitter foram postadas mensagens de protesto contra a maneira como o Jornal vem realizando a cobertura eleitoral. Os internautas tem postado mensagens irônicas, atribuídas ao periódico. Veja alguns exemplos:



"Serra lamenta: a Dilma me indicou o Xampu Esperança"

"Errar é humano. Colocar a culpa na Dilma está no Manual de Redação da Folha"

"Dilma disse para Paulo Coelho, há 20 anos: continue a escrever, rapaz, você tem talento!"

"Empresa de Dilma forneceu a antena para o iPhone 4"

“Dilma conseguiu parar Itaipú no blackout em 2009 algo que nem os militares, nem Sarney, nem Collor, nem Itamar e nem FHC fizeram”

“Erro de Dilma na coordenação das obras do PAC atrasa conclusão do Coliseu romano em 2.000 anos”

“DILMA ESTAVA NO QUARTO DE RONALDO FENOMENO NO FINAL DA COPA DE 1998”

“Paul Mc Cartney diz "A FOLHA" que Dilma plantou discórdia interna no grupo e levou ao fim dos Beatles”

“Folha Revela - Dilma indicou remédio para Vanusa”

“Dilma afirmou que vai desapropriar o Pântano do Shrek”

A ombudsman acusa a Folha de ter ignorado as críticas dos leitores através do Twitter: "Não dá para desprezar essa reação e a Folha fez isso. Não respondeu aos internautas no Twitter e não noticiou o fenômeno. O "Cala Boca Galvão" durante a Copa virou notícia. No primeiro debate eleitoral on-line, feito por Folha/UOL em agosto, publicou-se com orgulho que o evento tinha sido um "trending topic". Não dá para olhar para as redes sociais apenas quando interessa. A Folha deveria retomar o equilíbrio na sua cobertura eleitoral e abrir espaço para vozes dissonantes".
Enfim, não quero dizer que a imprensa deve ser censurada ou controlada, mas que ela não está acima do bem e do mal nem em vantagem alguma para dizer, melhor do que os outros, o que é a democracia e qual o caminho que o governo e a sociedade precisam trilhar. Na sua arrogância, a própria imprensa se esqueceu disso e agora certos jornalistas, como Reinaldo Azevedo, acreditam que são mais cidadãos do que outros só por que trabalham no jornal X ou na revista Y. No fundo nossa imprensa é muito mais parecida com o nosso presidente do que ela pensa. Ambos se julgam possuidores da opinião pública e essa briguinha não passa de uma disputada para saber quem tem mais capacidade de fazer a população de massa de manobra.

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