Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A encruzilhada do século XXI

Pastor Terry Jones

Difícil falar do mundo de hoje e ignorar o embate entre o Ocidente, herdeiro do Iluminismo, e o Islã, avesso ao laicismo. Um caso que chamou a atenção esses dias, e que lançou luzes sobre a encruzilhada, foi o do pastor evangélico norte americano, Terry Jones, que prometeu uma fogueira de livros do Alcorão, no dia 11 de Setembro (aniversário de 9 anos dos atentados contra as torres gêmeas) como protesto contra a construção de uma mesquita próximo ao local onde ficava o World Trade Center. O que dizer disso? Radicalismo? O Ocidente não é tão diferente do Mundo Muçulmano quanto pensamos?
Dia Internacional de Queima do Alcorão


Creio que as respostas são não tão simples. Em primeiro lugar, creio que Terry Jones não pode ser chamado de louco. Ele está errado e está sendo insensato, não medindo as consequências dos seus atos. Mas, como estadunidense que é, ele realmente acredita que está lutando pela liberdade, mesmo através de um ato estúpido. Se norte-americanos podem queimar a própria bandeira nacional em protestos, por que não se pode queimar o Alcorão? O Ocidente, e os EUA em particular, são muito ligados a tradições de liberdades individuais, da tolerância, da separação da Igreja e do Estado. No caso particular norte-americano, é uma liberdade protestante, individualista. A revolta de Jones se resume à seguinte pergunta: Por que só nós, ocidentais, somos impelidos à tolerância? Por que só nós temos que aceitar que os islâmicos entrem em nossos países e pratiquem sua religião, enquanto um ocidental não pode fazer o mesmo num país muçulmano?
Recentemente a Suíça proibiu a construção de minaretes nas mesquitas do país. A proibição veio através de um plebiscito popular e o argumento mais utilizado foi exatamente o de que os muçulmanos só pregam a liberdade religiosa quando são imigrantes morando no Ocidente, mas que não se lembram dessa mesma liberdade quando estão em seus países de origem, não permitindo aos estrangeiros o que obtém no exterior. É necessário ressaltar que a prática do islamismo, bem como a construção de mesquitas, não foi declarada ilegal. O próprio Terry Jones, chegou a voltar atrás algumas vezes e ainda não está claro se ele vai realizar a queima ou não.
Mesmo na sua intolerância, o Ocidente ainda é tolerante. O Islã o incomoda, o faz reagir contra seus próprios princípios de liberdade (caso da Suíça) ou o faz lutar por essa liberdade de maneiras impróprias (caso de Terry Jones), mas, ainda sim, dentro dos princípios moderados que o distinguem nos últimos séculos. O dilema é: conquistamos essa tolerância e liberdade, mas será que ela é capaz de lidar com o radicalismo dos povos que não compartilham com elas? O diálogo realmente vence o fundamentalismo religioso? Pior: enquanto nos lançamos a essas questões morais e éticas, o mundo muçulmano as ignora, uma vez que, para eles, sua sociedade não-laica está perfeita como está. Somos obrigados a dialogar e lidar com quem não quer dialogar, uma vez que não existe, para eles, a necessidade desse diálogo. É essa sensação que nos faz acreditar que a imigração islâmica é uma ameaça à nossa liberdade, pois eles usufruem de nossa tolerância para viver aqui, mas, ao mesmo tempo, procuram manter os seus valores tradicionais. Esses valores se chocam com os valores locais, criando um sentimento de medo e receio nos países que recebem esses imigrantes.




Reação de muçulmanos ao protesto de Jones nos EUA

Um caso exemplar é o da Alemanha. A comunidade gay alemã tem entrado em choque com os descendentes de turcos. As famílias turcas trazem de casa a homofobia que é muito mais forte no Islã do que nas nossas sociedades secularizadas. Os casos de agressão contra gueis praticados por membros da comunidade turca alemã explodiram nos últimos anos. Ao perceber a homofobia recrudescer ao nível de anos atrás, ativistas e simpatizantes (que são muitos num país onde o vice-presidente eleito pelo voto é guei assumido), enxergam o Islã como uma ameaça a um direito fundamental que havia sido conquistado e que volta a ficar sob ameaça (pelo menos é assim que enxergam). A conclusão que muitos já estão chegando é a seguinte: levando em conta que somos obrigados a aceitá-los em nossos países devido à nossa tolerância, mas não podemos pregar nossos valores em seus países, será que o Islamismo não vai crescer a ponto de destruir a laicidade, o secularismo e as liberdades individuais pelo qual lutamos por tanto tempo ao longo dos últimos 300 anos? O próximo passo, que é o mais perigoso, é que as pessoas se perguntem: Será que para salvarmos nossa herança moral não teremos que agir, mesmo que momentaneamente, de modo tão intolerante quanto o radicalismo islâmico, para nos protegermos? Ou seja, para salvarmos a tolerância teremos que ser intolerantes?
Atitudes como a de Terry Jones e dos suíços, já se encontram num pensamento entre a primeira e a segunda pergunta. No caso do pastor evangélico, quando sinaliza voltar atrás (mesmo que depois desminta), sua tolerância é torta, indignada, revoltada consigo mesma. No caso dos suíços, a proibição aos minaretes é uma intolerância envergonhada de si mesma, uma intolerância ciente do seu "pecado", mas ciente também, na sua visão auto-justificadora, de que o crime maior seria deixar que a ameaça à democracia (como enxergam o Islã) se propague e permita que a "verdadeira" intolerância (ou seja, o radicalismo religioso muçulmano) reine sobre todos.
Não creio que sou capaz de dar uma resposta para essa encruzilhada. Estamos perdidos, não sabemos para onde ir, o que pensar. A queda do socialismo deixou nossa geração pós-moderna sem paradigma aparente. O radicalismo religioso, no Ocidente, tem sido uma resposta rápida para as incertezas do mundo. E ele alimenta e amplifica o sentimento de guerra de civilizações, como mostra o vídeo protestante abaixo:


Imagens dos Estados Unidos. Camisetas "islamofóbicas".


Se não me sinto capaz de dizer onde essa história toda vai parar, acho que há um um aspecto que algumas pessoas não levam em consideração. O Islã, apesar de manter seu tradicionalismo quando transplantado para o Ocidente, já sofre e sofrerá ainda mais um processo de secularização. Nenhuma cultura ou religião muda de ambiente sem sofrer transformações. É até possível que esse novo Islã Ocidental, exerça uma influência sob o tradicional. O Cristianismo vai perder participação na porcentagem de religiosos, mas acho improvável que nossa laicidade esteja tão ameaçada. Isso dependerá de nós mesmos, de como vamos reagir aos novos desafios. Até porque não é só o islamismo que ameaça a laicidade. No Brasil a CNBB e diversas denominações protestantes vivem rondando o Congresso Nacional, travando pautas, tentando impedir leis, criando caso contra o Programa Nacional de Direitos Humanos (PnDH-3), que até pode ter alguns problemas, como na área rural, mas possui avanços, como a legalização do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo. A laicidade é uma luta diária e sem fim e que independe do Islamismo.
 Quanto ao embate entre o Ocidente e o Islã radical, fico sem saber o que dizer. No fundo, me sinto perdido como todos os outros. Não existe diálogo com o fundamentalismo, seja islâmico ou cristão, e não sei como daremos conta da crise entre liberdade laica e tradicionalismo religioso. Um terceiro ator deve surgir desse embate. O leste da Ásia, onde reinará a China, não faz parte de nenhuma das duas culturas. Qual será seu papel? Onde budistas, hinduístas, confucionistas, taoístas e xintoístas vão contribuir? A China vai adotar os princípios ocidentais de liberdade individuais? Como será a hegemonia cultural da Ásia Leste?
Muitas perguntas e nenhuma resposta.

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