Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma gota de sangue: o absurdo das cotas raciais


Quando eu digo que sou fã de alguém, é por que eu realmente acho que essa pessoa tem um grande valor para a sociedade. As pessoas podem ganhar reconhecimento por motivos muito diferentes. O esportista, por exemplo, ganha admiradores geralmente por causa da sua superação e habilidade. Um político, por sua vez, pelo legado que possa ter deixado em sua gestão. Quando digo que sou fã do sociólogo Demétrio Magnoli é por que acredito que ele é uma das poucas pessoas da academia brasileira nos dias de hoje com a cara e a coragem de fazer críticas ferozes e sem piedade contra as leis racistas e discriminatórias que ameaçam arrasar com nosso país tupiniquim. E quando falo em cara e coragem, quero dizer com isso que já se tornou necessária uma valentia heróica em combater as políticas de afirmação, visto que os críticos destas estão cada vez mais acuados, encurralados, ou mesmo, silenciados por uma trupe de racistas que os impede de falar qualquer coisa, esmagados por acusações de "elitismo" e preconceito.
Mas Demétrio Magnoli conseguiu romper essa barreira histérica dos neoracistas. Num estilo elegante e sedutor, que me lembra um outro ídolo meu, o biólogo Richard Dawkins (embora não invista na via cômica como este), o sociólogo acaba de lançar um livro delicioso que merece ser leitura de cabeceira, ao lado de outros clássicos do Novo Milênio, como Deus, um delírio. Trata-se de Uma gota de sangue: História do pensamento racial, lançado em São Paulo há poucos dias. A obra é um grito de lucidez em meio ao momento histórico em que vivemos, onde a divisão birracial (negros contra brancos) importada dos Estados Unidos parece ameaçar a sociedade brasileira naquilo que ela tem de melhor: a mestiçagem.



Há alguns meses atrás eu fui surpreendido por uma divulgação de um dos institutos de pesquisa mais respeitados do Brasil, o IBGE. Segundo essa instituição, a população negra do Brasil iria ultrapassar a população branca em breve, sendo que cada uma das duas "raças" representaria quase metade da população total brasileira. Os outros grupos, minoritários, amarelos e indígenas, representavam cifras insignificantes. O que me chocou na divulgação do IBGE foi a metodologia utilizada para se chegar ao total de negros. O instituto somou as porcentagens de pardos e de pretos (termos do próprio IBGE) e os identificou como negros, daí a porcentagem ter sido tão alta, totalizando quase metade de nós brasileiros.
Como dizem alguns amigos meus: "Pára tudo!" Peraí, quem foi que disse que pardos são apenas negros? Pelo que eu sempre entendi, ser pardo (aliás, que termo horroroso) é ser mestiço, moreno. Como os critérios de identificação de cor no Brasil sempre foram meramente os de aparência e não de ascendência, é quase impossível saber se a origem desses pardos é só africana ou também, por exemplo, indígena. Eu, por exemplo, tenho sangue africano, português e indígena. Sou mestiço e me auto-declaro moreno brasileiro. Parece que o IBGE não está satisfeito com minha auto-declaração. Eles resolveram decidir por mim e por todos os brasileiros mestiços, que somos negros e que nossos ancestrais indígenas e brancos não são tão importantes ou relevantes quanto os africanos. Agora me pergunto quem o IBGE pensa que é para determinar, sem nosso consentimento, qual a nossa cor e ascendência. Há mais um agravante: essa idéia de que uma simples gota de sangue negro torna uma pessoa negra é extremamente racista. Ela traz a sensação de que o sangue negro é impuro, que macula a "raça" branca, a qual só é verdadeiramente branca se for mantida "pura", sem misturas. De uma hora para outra o Brasil multicolor se tornou um país de brancos e negros. Somos obrigados a escolher entre os dois.




Como se não bastasse, decidiram ainda que os negros são vítimas de um complô dos brancos malvados e que, por isso, merecem ter privilégios no acesso à educação. Essas idéias vieram dos Estados Unidos, um país cuja história étnica é radicalmente diferente da nossa. A sociedade estadunidense, diferente da brasileira, foi idealizada e construída sob a idéia de “dois mundos raciais”. A luta dos norte-americanos contra a Inglaterra no fim do século XVIII levantou a bandeira da liberdade e da igualdade entre os homens, mas ironicamente, essa igualdade acabava quando o igual era um negro e em menor medida um branco não anglo-saxão e não-protestante. O século XVIII não definiu políticas de Estado que buscassem solucionar a marginalização dos afro-descendentes. Justamente essa hipocrisia silenciosa que culminará na Guerra de Secessão. Entre um conflito e outro, foram tecidas no seio da sociedade os dois mundos raciais: negros e brancos separados em todos os aspectos sociais. Na medida em que o governo, os líderes civis e a maioria da população branca não procuraram resolver o problema da escravidão durante e após a luta pela independência, o negro passou a constituir um problema sem solução que se arrastou para uma guerra civil. Até os chamados “Pais fundadores”, como Thomas Jefferson e George Washington jamais se opuseram à escravidão, quando não a defenderam. Antes, durante a guerra de independência contra os britânicos, os colonos só aceitaram soldados negros por que a Metrópole prometeu a eles liberdade para quem lutasse pela coroa.


Demétrio Magnoli

Após a Guerra Civil, o problema da escravidão foi solucionado, mas o negro, ainda assim, estava longe de obter igualdade. As gerações que sucederam à Guerra de Secessão veriam não uma melhora do status do negro na sociedade, mas sim o recrudescimento do radicalismo racista. Poucos conseguiram o direito de votar e nenhum conseguiu o status de uma classe governante, mesmo com o imenso progresso econômico. As formas de segregação se cristalizaram e se expandiram como nunca. Os quatro milhões de negros libertos após 1865, se juntaram ao meio milhão já livre nos guetos do norte e bairros e cidades afastadas do sul. O paradoxo da sociedade norte-americana é que ela acreditava (ou acredita?) tanto na separação racial quanto na liberdade racial, sendo que a primeira seria a condição para a segunda!
No Brasil não tivemos esse tipo de sociedade. Havia e ainda há racismo por aqui? Sem dúvida! Mas aqui a divisão social entre pobres e ricos sempre foi maior e mais profunda do que a entre negros e brancos. Os negros são maioria nas favelas, mas lá há também brancos e eles são todos iguais dentro da comunidade, bem diferente dos Estados Unidos, onde há bairros e até igrejas só para negros ou só para brancos. As políticas de cotas dizem que querem ajudar os negros e os equiparar aos brancos. Mas são os pobres (de todas as cores) que merecem se equiparar aos mais ricos (de todas as cores). Por mais que a herança da escravidão deixe os afro-descendentes em situação desfavorável no cenário nacional, ser pobre não é sinônimo de ser negro, não ter oportunidade de estudo e trabalho não é sinônimo de ser negro. Ser de classe média tampouco é sinônimo de ser branco. É justo um negro de classe média ganhar uma vaga de um branco pobre da favela só por que o IBGE ou os tribunais raciais das universidades decidiram que ele, por uma gota de sangue, é mais merecedor do que o outro?


É por essas e outras que eu penso que para ser a favor de cotas raciais (por Buda e raças existem?) ou a pessoa deve ser louca, ou mal informada ou picareta. Não posso criticar os loucos. Os mal informados são os bem intencionados que não conhecem tão bem do assunto. Já os picaretas, são os mal intencionados que esperam se dar muito bem com essas leis. ONGs pilantrópicas que me perdoem, mas vocês fazem muito mal a esse país.

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