Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Retratação



Toda vez que eu ouvia falar do filme Kramer vs. Kramer era para criticar a decisão da Academia do Oscar em premiá-lo com a estatueta de melhor filme em lugar de Apocalipse Now. Todos os fóruns, blogs, grupos de discussão que eu participei apontavam opiniões favoráveis a esse pensamento. "Vergonhosa", "absurda", "ridícula". Esses foram alguns dos adjetivos que eu já ouvi para qualificar a atitude da academia de Hollywood. Lembro-me bem que, recentemente, quando Crash venceu O segredo de Brokeback Mountain, vários internautas seguiram o mesmo caminho. A derrota do filme de Ang Lee foi entendida como uma "afronta", tal qual fora a derrota do filme de Francis Ford Copola.



Por algum motivo que eu não sei dizer, sempre comprei esse discurso. Sempre adorei Apocalipse now, mas nunca tinha visto Kramer vs. Kramer. Isso até o mês passado. O que tenho a dizer é que eu descobri que estava errado. Aliás, que coisa imbecil é ter opinião antes de experimentar aquilo que estamos julgando. Não consigo entender o por que da resistência contra o filme de Robert Benton. Penso que filmes de guerra são preferidos pelo público. Será? Eu sinceramente gosto mais de dramas familiares. E Kramer vs. Kramer consegue mais do que ser um drama familiar. Estamos falando de um filme protagonizado por Dustin Hoffman e Meryl Streep, ambos jovens e em interpretações arrasadoras.



Joanna Kramer (Streep) decide abandonar o marido, Ted Kramer (Hoffman) por que ele não a deixa trabalhar e dá mais atenção à sua vida profissional do que a ela. Ted se vê obrigado a cuidar do filho de seis anos a quem não dava tanta atenção antes da separação. As sequências de conflito e carinho entre pai e filho valem mais do que a maioria das cenas que eu já vi no cinema. Mas a história não estaria completa se Joanna não voltasse cerca de um ano e meio depois disposta a brigar na justiça para reaver o filho, o que arrasta os dois a uma dura batalha judicial pela guarda do menino.



As cenas do julgamento são soberbas. Streep mostra por que se tornaria a maior indicada ao oscar da história. Hoffman brilha em vários momentos. Vale a pena se emocionar com a cena em que pai e filho disputam pelo sorvete. Ou quando Ted, desesperado, corre com o filho no braço em direção ao hospital. 
Historicamente falando, algumas situações podem parecer distantes e mesmo irreais para nossa época. Hoje em dia um homem dificilmente pode exigir da esposa que ela não trabalhe. Poucas mulheres se submeteriam a isso. A família representada no filme está datada. Mas todo o esqueleto do filme é atemporal. A maneira como as relações humanas estão concebidas na obra de Benton, são tão tocantes e profundas que fazem os mais sensíveis ficarem pensando no assunto por muito tempo. 
Por outro lado há um tema que o filme toca e que na época tinha uma importância menos relevante do que hoje. Afinal, a mãe deve ter a primazia sobre os filhos na separação? Por muito tempo se pensou que sim. Hoje, muitos homens estão brigando pelo direito de serem pais. Mas serem pais no sentido pleno: aquele que dá amor, carinho, educação, paciência, sabedoria para seus filhos. O sentido antigo de pai apenas como provedor deve ser rejeitado e combatido. Em nossa sociedade, a materinidade é valorizada. As meninas, desde crianças, brincam de ser mãe, de cuidar de filhos. À mulher é inculdada a quase obrigação da maternidade. Para os meninos, pelo contrário, valoriza-se a independência, seja afetiva ou material. Quando tiver um filho (e quero muito ter pelo menos dois), vou procurar ensinar a ele o valor da paternidade. Ensinar que ser homem é bem diferente de ser "machão", de esconder os sentimentos. Quero ter uma relação com ele diferente da que tive com meus pais.  Quem sabe um dia eu não possa sentar e assistir com ele esse filme (que é de 1979) e ensinar mais uma lição a ele: certos filmes são atemporais.

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