Homem com H maiúsculo

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Por que o homem é a maior obra de arte

sábado, 13 de dezembro de 2008

Pele sobre pele: reflexões sobre o toque



Lembro-me até hoje da primeira vez que eu dei um beijo, e já se vão longos 9 anos. Para um menino de 14 anos, foi uma expeiência bem interessante. Meu primeiro beijo demorou mais de 30 minutos sem parar. Para minha surpresa, eu não conseguia fechar os olhos. Todo mundo quando beija (e eu já tinha visto isso nos filmes) fecha os olhos, como se só o toque entre os lábios já fosse suficiente para desfrutar o momento. Mas comigo não foi assim. Lembro-me muito bem do meu rosto se aproximando, se aproximando... o rosto da outra pessoa fazia o mesmo movimento, até nossas bocas se encontrarem em pleno ar. Foi incrível. Mas, diferente dos filmes, eu não fechei os olhos. Parecia que era uma coisa tão incrível que eu não podia estragar cegando minha vista para aquele rosto quente colado ao meu. Eu precisava somar ao sentido do tato, o sentido da visão, para que eu mesmo acreditasse que estava acontecendo. Lembro de tudo isso com tanto carinho que toda vez que recordo aquele beijo numa escaria escondida de uma casa em Paulínia, músicas surgem na minha cabeça. De repente, parece que estou em um desses filmes de romance ou de drama que eu adoro. Uma trilha sonora perfeita para aquela tarde de verão de 1999 é a do drama tailandês The Love of Siam, uma das películas mais belas que eu já vi na vida (falarei sobre isso outro dia).
Estive pensando sobre isso graças a dois lançamentos que a cultura pop estadunidense nos brindou recentemente: a animação Wall-e e a série Pushing Daisies
Para quem ainda não conhece o novo desenho da Pixar, vale a pena conferir essa emocionante (e tocante) aventura de um robô solitário que vive em um planeta terra devastado pela degradação da natureza. O pequeno Wall-e está programado para recolher e empilhar lixo há mais de 700 anos. Aparentemente ele é o único robô que sobrou no nosso decadente planeta. Sozinho no mundo, Wall-e aprendeu a se virar. Coleciona todo tipo de coisas que encontra no lixo, e parece ter uma curiosidade sobre os antigos habitantes da terra, os humanos. Graças a uma gravação de um musical que achou em uma de suas expedições, ele aprendeu o que é sentir amor, o que é música e principalmente o que é o toque. Pobre Wall-e, não há ninguém para que ele experimente o sabor do calor humano, só montanhas de lixo e sua pequenina amiga, uma barata que o segue a todo momento.
Mas tudo isso muda quando chega à Terra a robô Eva. Os humanos, de fato, não estavam instintos. Vivem exilados na nave Axioma, e periodicamente enviam sondas para verificar se a vida voltou a ser possível em nosso planeta. Eva é uma dessas sondas. Obviamente, para Wall-e, é paixão à primeira vista. A partir daí a Pixar mostra, quase sem diálogos e apenas com um visual deslumbrante e poético, como a vida pode ser mais cheia de cores e sons do que podemos imaginar quando decidimos abandonar a nossa frieza e embarcar na aventura de simplesmente tocar mais as pessoas. Tocar com nossas mãos, com nossos conselhos, com nosso ombro, com nossas vidas. Se procura diversão e entretenimento inteligente, deixe Wall-e e Eva levarem todos vocês.

Quanto à série Pushing Daisies, devo dizer que nada me emociona mais na televisão (quer dizer no computador, já que baixo os episódios da internet) do que ver a delicada relação entre Ned e Chuck. Ned é o protagonista. Quando criança ele descobriu que tinha um dom. Ao tocar qualquer coisa que estivesse morta, ela retornaria à vida imediatamente. Até aí seria um poder pra lá de fantástico. Quem não gostaria de pode ressuscitar os mortos? Mas assim como nos lembra o Buda, toda ação provoca uma reação. Caso Ned deixasse que o ressuscitado sobrevivesse, a morte iria escolher aleatoriamente outra pessoa para morrer no lugar daquele que tinha retornado à vida. Na verdade, era uma troca. 
Ainda existia um outro complicador. Uma vez que Ned ressuscitasse uma pessoa, não poderia mais tocar nela de novo, senão a pessoa voltaria a morrer. Essa condição era permanente. Se por um lado ele poderia fazer retornar da morte quem ele amava, havia a consequência de nunca mais poder tocar nessa pessoa e, ainda mais, tirar a vida de uma outra pessoa inocente.
Como nada na vida é fácil, Ned tirou Chuck do mundo dos mortos. Os dois se amam, estão apaixonados, mas não podem se tocar. Como demonstrar amor sem tocar a pessoa que você ama? Vale a pena seguir com um relacionamento desses?
Hoje, com 23 anos, sou muito diferente de quando tinha 14 anos. Naquela idade eu poderia me considerar uma pessoa quase fria. Sou um jovem muito mais sentimental e sensível às causas humanas do que quando era adolescente. Puxa, mas como é difícil demonstrar sentimentos! Mas hoje pelo menos eu tento! Meloso, às vezes indiferente, às vezes sensível demais, outras vezes quase insensível. Se eu não tenho o amor pela humanidade que tem um Ghandi ou um Buda, não sou mais uma Margareth Thatcher. Me sinto feliz por que minha preocupação com o bem-estar dos outros só fez crescer nos últimos anos. Por outro lado ainda tenho muito o que aprender com o Wall-e. E espero ainda poder sentir a vida de uma maneira tão intensa quanto Chuck e Ned.
E pensar que tudo isso começou na minha vida com aquele beijo. Pois é, e até hoje eu não consigo fechar os olhos quando beijo alguém.


Para todos esses amores que nos iluminam a vida (The Love of Siam).

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