Homem com H maiúsculo

Homem com H maiúsculo
Por que o homem é a maior obra de arte

domingo, 14 de dezembro de 2008

Enquanto isso na Tailândia...

Hoje eu quero falar de um dos filmes recentes que eu mais gostei de ver na vida. Trata-se de The Love of Siam, um drama tailandês que, com muita sensibilidade, consegue falar do sentimento de perda e a angústia em lidar com a ausência. 

A trama gira em torno de dois personagens centrais: Tong e Mew. Os dois são muito amigos na infância e são vizinhos. Enquanto Mew mora sozinho com sua avó, Tong vive com os pais e com sua irmã Tang. Sua família é religiosamente católica, em um país onde não existem muitos cristãos. Como a vida nunca é fácil para ninguém, essa infância bela e idílica não poderia durar (e a de alguém dura?). Em uma viagem ao interior do país, Tang desaparece ao se perder do grupo de amigos com quem acampava. A família de Tong fica arrasada, especialmente o pai. Desolados, eles mudam-se de casa, tentando esquecer o fantasma da filha perdida.
Anos se passam sem que Mew e Tong se vejam. A avó de Mew já havia morrido e ele mora sozinho. Já o pai de Tong, culpando-se pelo desaparecimento de Tang, se converteu em um bêbado doente. A mãe se vê obrigada a trabalhar e sustentar a família sozinha. 

(Mew,interpretado pelo ator Witwisit Hiranyawongkul)
(Tong, interpretado pelo ator Mario Maurer)

  Enquanto isso, Mew se tornou um cantor de relativo sucesso. Sua August Band está aparecendo cada vez mais nas paradas. É quando Tong resolve comprar um Cd da banda e acada descobrindo que o vocalista é seu antigo vizinho. Lentamente os dois se reaproximam e descobrem estar apaixonados um pelo outro.
Ao mesmo tempo, os dois armam um plano para tentar "salvar" o pai de Tong que está cada dia pior, se afundando no alcoolismo e na culpa. Eles pedem que June, uma nova amiga que conheceram, se passe por Tang e tente fazer o pai acreditar que a filha voltou. Esse sentimento de perda, que é tão fortemente trabalhado no personagem do pai, aparece em todos os outros personagens, ora sutilmente, ora desesperadamente.
Ying, a adorável vizinha de Mew, sente-se sozinha e chora pela perda do amor de Mew, que, na verdade, nunca teve. Tong perde a irmã, "perde" o pai, visto que ele vive como se estivesse morto e sente que vai perder Mew pela segunda vez. A mãe perdeu tanto a filha quanto o marido e acha que vai perder o filho, pois é assim que ela entende o amor que ele sente por Mew. June é a personagem que mais perde ao longo do filme, não tem família, não terá emprego e perderá sua segunda família. Mew perdeu a avó, perdeu Tong uma vez e sente que irá perdê-lo de novo. Em certo momento perde sua criatividade e não sabe mais se deve cantar ou compor.
Um filme sobre a solidão, sobre o "vazio", sobre o buraco que certas pessoas, certas sensações e certos sentimentos deixam quando vão embora para não voltar nunca mais. Quando vivemos geralmente não pensamos que o momento presente é único e que não pode se repetir. Às vezes parece que as coisas serão as mesmas sempre. Não serão. Lembro-me que quando eu tinha por volta de 10 anos o maior sucesso infantil do momento era o desenho japonês Cavaleiros do Zodíaco. Além desse existiam outros que faziam a minha cabeça na época: Caverna do Dragão, por exemplo. E o que dizer de Power Rangers? Sessão da tarde? Curtindo a vida adoidado? Goonies? Conta Comigo?
Todas as vezes que eu revejo esses clássicos da infância um arrepio corre pela minha espinha. Eu quase sinto as mesmas sensações que eu sentia quando era criança. Cavaleiros do Zodíaco, por exemplo, me lembra o gosto que aquela bala de morango deles tinha. Na época, eu nem ligava muito para a bala, de tão louco que estava para abrir e ver a figurinha de que cavaleiro eu tinha pegado. Mas de tudo, foi o gosto que ficou. Essas sensações são fantásticas, mas não chegam a ser uma cópia fiel do que foi minha vida. Não passam de resíduos, fragmentos, vestígios do meu passado. Carambra, se dá para sentir tudo isso só com desenhos animados, o que falar de pessoas que amamos, de lugares que nos maracaram, de sons, de cores, de imagens que fizeram nossas vidas? É uma pena que a vida de uma pessoa seja tão frágil quanto a memória a respeito de um desenho animado.  A vida de Tang, assim como as nossas vidas, uma vez perdida, não poderá ser recuperada. Ficam apenas os fragmentos, os vestígios. Eles são muito pouco para quem perdeu um ente querido, um grande amigo, um grande amor, mas é tudo que temos. Só nos resta continuar vivendo e manter respeito por aqueles que não vão seguir na jornada conosco. Se as lembranças pesarem, o melhor é deixar que elas se vão. Poxa, mas isso não deve ser fácil. Escrevendo essas linhas eu sei que aquilo que se diz é quase sempre diferente daquilo que realmente se faz. Mas, como uma pessoa que já perdeu muitas coisas na sua vida, posso afirmar com certeza que o melhor é mesmo seguir em frente.

 
(A delicada relação que o filme constrói entre Tong e Mew é forte e "real", transcendendo a tela do cinema)

(Elenco na divulgação do filme)

Trailer The Love of  Siam


Realmente é um filme que vale a pena baixar da internet. Aproveitem e se deliciem com a belíssima trilha sonora!

Para todos esses amores que nos iluminam a vida (The Love of Siam)

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